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  1. Essas carícias

    abril 12, 2012 by Sam

    Esses dias fiquei pensando sobre demonstrações públicas de carinho. Quando vivia como hétero e namorava garotas, não gostava de beijar na presença de outras pessoas. Me sentia exposto, desconfortável. Ainda me permitia andar de mãos dadas porque era quase lei para um casal de namorados. Talvez tivesse medo de alguém notar, pelo meu desempenho durante o beijo, que eu era gay. Talvez não. Nunca parei para analisar se me preocuparia com isso no caso de encontrar um namorado hoje. Mas provavelmente seria um ponto bastante discutido.

    É natural que as pessoas que se amem, demonstrem seu carinho, seja no sofá de casa, num encontro na rua ou mesmo caminhando pela calçada. Não se pode censurar o amor, nem o momento que ele surge. Um sorriso e um abraço sincero não podem esperar. Sentimentos brotam e morrem. E as pessoas sabem disso. Ainda assim, o constrangimento pelo afeto em público, parte primeiro de quem o faz. Mas quando ele é verdadeiro e genuíno, fica bem mais fácil de ganhar a compreensão dos outros.

    Tenho visto nas últimas semanas, um grande número de casais gays pelas ruas. E visto também os diversos tipos de reação. Sempre, em todos os casos que presenciei, por mais simples que fosse o carinho, havia alguém olhando e soltando aquele famoso risinho. Mas também vi um ‘que lindo!’ de uma moça, ao observar dois garotos se despedirem, bem afetuosos, numa manhã de domingo.

    Confesso que quando vejo algum casal, foco as minhas atenções, bem mais, na reação das pessoas próximas, para tentar descobrir como estão encarando a homossexualidade na sociedade de hoje. E tenho ficado surpreso por ver que aquelas pessoas que olhavam a ponto de agredir, tem diminuído bastante. O que predomina são as risadas que surgem como se estivessem diante de uma situação cômica. Principalmente héteros que ainda não conseguem entender como um homem é capaz de beijar outro.

    Tem sido comum me encontrar com um casal que costuma frequentar o mesmo shopping que eu. Desde o primeiro momento que os vi, percebi uma coisa estranha. Eles se empenhavam em deixar claro para todos que eram um casal gay e não poupavam as intimidades, muitas, nitidamente, sem o menor propósito. Saíram da zona do espontâneo para a provocação. Era assim que parecia. Que eles estavam a fim de provocar as pessoas, ainda não tão habituadas com carícias entre dois homens. Não por menos, obtiveram as reações mais explícitas.

    Fico pensando. Os gays devem lutar pelos seus direitos. Sim, nós temos muito pela frente ainda. Mas nada será alcançado à força. Até para se aceitar, há o tempo. Não precisamos ficar “agredindo” as pessoas com nossos comportamentos, para garantir nosso espaço. Ele será conquistado com os anos, a tolerância e o respeito.

    Não posso comparar um casal hétero que se beija na rua com um gay. Ninguém se importa com um garoto e uma garota que andam de mãos dadas. Como disse no início, é quase lei. Não choca mais. Mas lembrem-se que o beijo em público, mesmo entre héteros, já foi mal visto. Os jovens que o faziam eram levianos, promíscuos. Mas o tempo passa, as pessoas crescem, os conceitos mudam.

    E como disse, a educação e o respeito, de ambos os lados, produzem grandes resultados. Geram momentos preciosos, como o que presenciei essa semana, na orla de Copacabana. Um casal gay caminhava abraçado e conversando, tão discretamente, que pareceu natural não só para mim, mas para quem cruzava com eles. Claro, houve quem olhasse e risse da situação. Mas ao final do sorriso, veio um gestual de cabeça em sinal de positivo, como quem diz, “é isso aí”.


  2. Alimentando o perigo [Parte Final]

    abril 7, 2012 by Sam

    Era como se eu estivesse sedado. Sim, era assim que eu me sentia. Como se tivesse recebido uma dose majestosa de benzodiazepínicos. O mundo à minha volta era uma realidade paralela. Eu circulava entre os alunos pelos corredores como um fantasma após um desencarne brusco. Nada me atingia. Meu corpo estava ali, mas minha mente percorria os lugares mais sombrios e distantes de um outro mundo. Só conseguia pensar no que me aconteceria quando me encontrasse com Lisa e minha mãe. O que diria a elas? Haveria outra explicação que não fosse a verdade? Por que tinha que ter alimentado tanto essa fantasia por Dante?

    Ainda mergulhado nesses pensamentos, cheguei à porta da minha sala e entrei. Ali junto aos outros alunos e à nossa exposição, estava seguro. Ganhava tempo para raciocinar. O que quer que Lisa e minha mãe tivessem descoberto, não ousariam me interrogar na frente de todos. Mas a ansiedade era visível, e a menor preocupação com a mostra soava irritante aos meus nervos. Tudo era por demasiado insignificante diante da tamanha tempestade que eu estava prestes a enfrentar. E o que eu temia, aconteceu. Elas chegaram à porta, e com um olhar indagador, minha mãe me chamou.

    Foram uns passos tão apreensivos. Parece que definitivamente ela teria coragem de me interrogar ali mesmo. Em segundos, estava à sua frente, aguardando a enxurrada de perguntas e a sentença final. Mas ao contrário do esperado, ela apenas me informou que estava indo embora. Ué, mas e a conversa com Dante? A verdade reveladora a meu respeito? A que fim teria levado todo aquele bate-papo entre os três na sala ao lado? Talvez estivesse se contendo para despejar a bomba quando estivéssemos a sós. Embora Lisa demonstrasse a mesma naturalidade de sempre. Eu estava mais confuso do que antes. Não sabia o que pensar.

    A tensão ficou maior quando o dia seguinte chegou, as horas se passaram, e nada de minha mãe me questionar a respeito de Dante ou sobre o resultado da conversa da noite anterior. Eu muito menos tinha coragem de perguntar qualquer coisa. Minha única salvação seria quando me encontrasse com Lisa à noite. Com ela teria coragem de perguntar o que havia ocorrido de fato, afinal, se ela tivesse com algum grilo a meu respeito já teria despejado suas indagações sobre mim, mas ao contrário, ligou toda manhosa me desejando bom dia.

    Quando a noite chegou e me dirigi à sua casa, não aguentei muito tempo e perguntei de uma vez o que elas tinham conversado com Dante. Coisas banais. Minha mãe apenas ficou comentando sua semelhança com Murilo Benício e depois informou que era mãe do Sam do terceiro ano, aguardando, talvez, que ele a cumprimentasse feliz por conhecer a mãe de um “grande” amigo seu. Dante apenas sorriu. Ora, eles estavam numa feira de ciências da escola, os pais de praticamente todos os alunos deviam estar circulando por lá, ela devia estar apenas informando ser mãe de algum deles. Sam! Sei lá quem é Sam. Sorriu. Apenas isso. E elas se foram.

    Aliviado por saber que meu segredo continuava a salvo, ainda sentia o peso da desconfiança nos ombros. Lisa nada percebera. Mas minha mãe permanecia calada, pensativa, em suspeita, como se algo não se encaixasse na história. Não havia mais o que fazer para tirar aquela dúvida da sua cabeça. Apenas aguardar que o tempo a fizesse esquecer. E assim o fiz.

    Depois da exposição de ciências, o ano logo chegou ao fim. Era minha despedida da escola, da turma, dos professores. Novos saltos de agora em diante rumo ao vestibular, à faculdade. Sabia que era também meu adeus a Dante. Quando o veria novamente? Talvez nunca. Ah, aquela última tarde pelo colégio, circulando pelos corredores, a camisa recheada de assinaturas, e na sala do segundo ano, o último olhar para Dante, que fazia ainda sua última prova. Acabara! Eu estava me despedindo com grande emoção de alguém que sequer conhecia a minha existência.

    E os meses correram. Não passei no primeiro vestibular e fui para a capital fazer cursinho. Tudo de repente se modificara. Uma nova realidade se desdobrava aos meus olhos. Nada me lembrava a vida pacata e os desejos secretos por Dante. Novos amigos foram surgindo, novas paixões e a vida parecia seguir o seu rumo.

    Costumava almoçar, durante a semana, em um bar em frente ao prédio, mas aos domingos era fechado, então recorria a uma padaria próxima, que tinha um self-service maravilhoso. E nesse dia, domingo das mães, cheguei como de costume, a padaria lotada, mal encontrava local para sentar. Foi quando vi uma mesa de quatro lugares, ocupada apenas por um rapaz. Fui até lá e toquei no ombro dele, perguntando se havia alguém ali. Mal consegui segurar a respiração quando reconheci aquele rosto. Não era possível. Dante! Ele se levantou e saiu. Meus talheres escorregaram das mãos. Não conseguia comer direito. Ficava a todo instante o procurando pela padaria para não perdê-lo de vista.

    O que teria acontecido? Ele estava morando ali também? Estava a passeio? Quando acabei a refeição, passei atordoado entre as pessoas, buscando aflito aquele rosto amado novamente. E o encontrei do lado de fora, em companhia de outro garoto menor, talvez primo ou irmão. Sua família devia estar lá dentro. Poderia ter ido até ele, falar que o lembrava da escola, mesmo não sendo colegas, ele devia se recordar do meu rosto pelos corredores. Mas não fui. Estava me achando muito desarrumado para estabelecer nosso primeiro contato de verdade. Saí da padaria, olhei rapidamente em sua direção e fui embora. Foi definitivamente a última vez que o vi.

    Quando passei no vestibular, me mudei outra vez de cidade e já considerava Dante assunto morto. Foi quando surgiram as redes sociais e a febre do Orkut. Agora todo mundo poderia encontrar todo mundo e partilhar um pouquinho das intimidades de cada um. Então, por mera curiosidade, procurei e encontrei o perfil dele. Não havia muitas fotos, mas lá estava o garoto dos meus sonhos passados. Um pouquinho mais forte, porém, o mesmo sorriso e olhar inocente do primeiro dia que o vi.

    Precisava colocar um fim naquela história. Ele precisava saber tudo que tinha alimentado por ele. Tudo que tinha passado em seu nome. E resolvi. Criei um perfil falso e lhe enviei um recado narrando todas as minhas peripécias desde o dia em que bati os olhos nele. Disse que ele poderia me mandar à merda, mas queria uma resposta. Precisava conhecer sua reação para seguir em frente. Um dia depois, ele me respondeu. Foi educado, talvez até sensível àquela inusitada situação, disse que agradecia todo o carinho que eu sentia por ele, mas que não poderia nunca corresponder, ele não era gay, e no fim me pediu para não lhe enviar mais aqueles recados. Claro que eu obedeci. Não poderia exigir nada além dele. Ao menos estava aliviado. De uma maneira meio torta, tudo que planejava enviar quando escrevi aquela primeira carta, chegara finalmente ao destinatário. Eu sabia desde o início que essa história não seria um conto de fadas, então foi uma maneira racional de chegar ao fim. Entrou para as minhas memórias e ainda serviu para reforçar um pouquinho a minha verdadeira identidade na cabeça da minha mãe.


  3. Alimentando o perigo [parte II]

    março 30, 2012 by Sam

    Eu estava encostado na parede. Qualquer movimento ou atitude minha poderia me comprometer no que eu viesse a argumentar. Com o cartaz e a carta para Dante em mãos, minha mãe aguardava uma resposta, gélida como sua consciência. No fundo eu sentia que a mais descabida justificativa que eu viesse a dar naquele momento, encontraria lógica no raciocínio dela. Tudo seria aceitável, desde que conseguisse explicar o que uma carta de amor endereçada a um rapaz estava fazendo no caderno de seu filho.

    Por sorte, ou por falta dela, embarquei na viagem que eu mesmo havia idealizado. Minha prima estava apaixonada por Dante, não tinha coragem de se assumir, resolveu escrever-lhe e pediu minha ajuda para entregar a carta. Afinal, não era isso que dizia no papel? A letra nem minha era. Parece que eu estava mesmo prevendo todas as possibilidades que aquela minha iniciativa poderia resultar. E logo, minha explicação foi ganhando terreno na mente da minha mãe. Suas únicas indagações foram a respeito de como minha prima o conheceu. Nem levou em análise a diferença de 5 anos entre ambos, e o detalhe que minha prima de 21 jamais se interessaria por um garoto de 16, nem mesmo precisaria de tais artifícios para conquistá-lo.

    Mas a justificativa estava dada. Seu filho, para alívio da consciência, não era “veado”. Tudo não passara de um mal entendido. Opa! Por que a carta estava então ainda comigo? Ah, por acaso, esqueci de entregar e não estava levando muito a sério a súbita paixão da minha prima. Então, dobrando os papéis e já tomando posse deles, minha mãe partiu para a cozinha na missão de dar descaminho àquelas confidências que poderiam colocar em risco a reputação de seu filho. Pouco importava se sua sobrinha conseguiria ou não declarar seu amor. O que não podia de jeito algum era que eu continuasse com aquilo no meu caderno.

    Não fiquei satisfeito. Apesar de ter conseguido me sair razoavelmente bem, me sentia em análise. A dúvida pairava no ar. Tanto a minha, ao pensar se realmente minha mãe havia embarcado na desculpa, como a dela, se de fato era verdade o que tinha lhe contado. E esse clima de tranquila aparência se prolongou por algum tempo. Eu estava cada dia mais cauteloso em minhas atitudes para não deixar no ar a menor dúvida sobre minha sexualidade. Mas me sentia em suspeita. Tomei algumas providências a fim de garantir que mais nada vazasse na minha história, e adulterei o telefone da minha prima na agenda. Cheguei até a mudar a caligrafia. E em decorrência disso, a letra redonda que havia cultivado até aquela idade, ganhou contornos mais formais, que me acompanham até hoje.

    Ainda assim, estava preocupado que a mentira pudesse perder fôlego, e resolvi fornecer mais combustível para sua resistência. Logo me vi repetindo a mesma história para Lisa, minha namorada. Aos poucos, eu mesmo estava acreditando naquela farsa. Sempre tive a capacidade de embarcar nas minhas ilusões e torná-las praticamente reais. E Lisa adorava me provocar ciúmes ao falar dele. E eu adorava vê-la fazendo isso. Dante virou ‘nosso assunto’! Sem perceber, o garoto que me lembrava Murilo Benício, entrou em definitivo em nossas vidas. Lisa me pedia que levasse recadinhos, que eu fingia chegar até ele. E Dante tinha reações à la minha imaginação.

    Até que uma feira de ciências na escola resolveu brincar com essa realidade. Três noites de exposições de trabalhos de todas as turmas movimentaram a escola. Lisa e minha mãe, assim como as famílias de cada aluno, foram prestigiar o evento. Elas já tinham deixado claro que estavam desejosas por conhecer Dante. Ou seja, meus dois mundos estavam prestes a colidir. Na primeira noite, tive a sorte de não localizar Dante em lugar algum. Parece que ele não havia ido mesmo. E para meu alívio, nem Lisa, nem minha mãe chegaram a conhecê-lo. Na segunda noite, foi o contrário, elas não foram, e Dante circulou com todo seu charme pelos corredores da escola.

    Entretanto, a correnteza virou na terceira e última noite da exposição. Lisa e minha mãe me acompanharam, e ao chegar, encontrei o perigo ainda na entrada. Mas como elas não o conheciam nem por fotografia, passei reto e fingi naturalidade. Contudo, não se encontra um garoto parecido com Murilo Benício em toda esquina, e bastaram algumas horas correrem, pessoas circularem, e Lisa percebe Dante.

    - É aquele, num é? E você disse que ele não tinha vindo.

    Pronto! Já era! Ela encenou o gritinho que havia ensaiado para quando o encontrasse, e logo me vi tapando sua boca, para que não só Dante e os outros ouvissem, mas também minha mãe. Em vão. Notando que ele, de fato, se encontrava na escola, minha mãe insistiu para que eu a levasse até sua sala e a apresentasse. Aleguei que precisava voltar à exposição da minha turma e as deixei circularem sozinhas. De olho nelas, não demorou muito, e percebi quando entraram na sala do 2º ano. Em pouco tempo, batiam papo com o próprio Dante. Um papo que nunca nem eu havia trocado. Era o fim! Agora com certeza tudo seria descoberto. Não havia prima nenhuma interessada nele, ele sequer me conhecia, e muito menos me convidara para conhecer sua cidade. O que explicaria à minha mãe agora? E Lisa? O que diria a ela? Como encarar Dante a partir de então?

    O pânico me cercava, quando elas saíram da sala sem muitas expressões. Minha mãe parecia ligeiramente tensa. Dante e a colega do lado ainda terminavam o risinho, do que parecia ter sido uma conversa, no mínimo, divertida. O que teriam conversado? Um buraco para me enterrar! Um controle remoto para parar o tempo! Uma borracha para me apagar do mundo! Era tudo que eu queria. Elas agora vinham à minha procura. O que fazer? Como explicar que eu nunca existi aos olhos de Dante? Como justificar tantas mentiras? Haveria chegado a hora de assumir de vez o verdadeiro garoto que habitava em mim, ou teria condições de elaborar mais histórias fantasiosas para escapar outra vez? Sem mais pensar, tomei o rumo da minha sala, disposto a encarar o inevitável, fosse ele qual fosse.


  4. Alimentando o perigo [Parte I]

    março 27, 2012 by Sam

    Eu havia acabado de trocar de sala. Algumas mudanças tinham ocorrido nas disposições das turmas e fui parar na sala ao lado do segundo ano. Era meu último ano no ensino médio, conhecia cada buraco daquela escola, cada professor, funcionários, alunos, os mesmos rostos curiosos a circular pelos corredores no intervalo. No entanto, sentado aos pés de um dos pilares do corredor, lendo alguma coisa sobre o joelho dobrado, me deparei com o inusitado. Cabelo curto, rosto fino e um olhar inocente. Vez por outra abria um leve sorriso com a leitura. Fiquei anestesiado. Como não poderia ter notado?

    Não sabia exatamente o porquê, mas aquele garoto havia despertado em mim uma súbita atração, decorrente talvez de sua beleza, ou da similaridade com o modelo de perfeição que idealizamos. A sirene do fim do intervalo tocava, enquanto eu tentava disfarçar o olhar penetrante que acompanhava os movimentos dele até a porta de sua sala. Os dias seguintes confirmaram minha teoria: estava apaixonado.

    Não havia um dia sequer ao chegar à escola que não o procurasse com os olhos. Encontrava sempre um jeito de vê-lo antes da aula começar, passava pela porta de sua sala no meio da aula, e meus intervalos eram todos dele. Se estivesse no pátio, era para lá que eu iria, se permanecesse no gramado ou nos corredores, por lá eu também me encontraria. Virou minha obsessão.

    Decidi então investigar melhor sua vida, como se chamava, onde morava, mas não ousaria uma tentativa de aproximação. Ele parecia um perfeito hétero, embora nessa época eu mal conseguisse distinguir um cisco de uma paquera. Mas devagar consegui descobrir que ele morava numa cidade vizinha e todos os dias pegava a estrada em um “pau de arara” ao lado de outros estudantes. Fiquei determinado a descobrir a qual cidade aquele carro pertencia.

    E chegando à escola um determinado dia, tive a chance que esperava. O carro estava parado ao lado do muro e o motorista separava alguns papéis do lado de fora. Tomei fôlego e me aproximei perdendo chão a cada passo. O homem se voltou para mim, e como se eu estivesse tranquilamente procurando transporte para viajar, perguntei.

    - Esse carro vai pra onde?

    O homem disse lá o nome de uma cidadezinha que eu já tinha ouvido falar, embora nunca tivesse ido. Agradecido, me retirei. Podia imaginar o olhar indagativo do homem atrás de mim. Mas que importava? Agora sabia onde meu pupilo morava. Ah, minha mente fantasiou tantas ideias. Poderia pegar um carro um fim de semana e ir visitar a cidade, quem sabe esbarrar nele e sair com aquela, “opa, você não estuda em tal escola?”, e nossa amizade surgir daí. Mas como justificar a viagem a minha mãe? E nem o nome dele eu sabia. Como iria encontrá-lo lá?

    Foi então que para surpresa minha, o próprio resolveu me dá uma forcinha. Reparei certa vez durante o intervalo, que havia um nome riscado à caneta na perna da calça da farda dele, em toda a extensão da coxa. Olhei fixamente e identifiquei. Dante. Seria o nome dele? Esquisito. Precisava confirmar. E encontrei o meio através do professor de biologia. Augusto era completamente descontraído. Não havia aquele muro entre aluno e professor com ele, de modo que se algum aluno quisesse saber sua nota do bimestre anterior e ele estivesse longe do diário de classe, o aluno tinha total permissão para ir até lá e conferir. Foi o que acabou acontecendo comigo. Porém, eu aproveitei a oportunidade e chequei a turma do segundo ano, e lá estava com todas as letras, Dante.

    Agora sabia seu nome e onde morava. Mas de que me adiantava? Eu nunca teria nada com ele. Resolvi então criar meu universo paralelo, onde Dante era o meu melhor amigo e até já havia me convidado para ir a sua cidade. Foi essa a versão que apresentei a minha mãe e até a Lisa, a garota com quem eu namorava já há alguns meses. Me contentava em fantasiar a elas, minha forte amizade com ele. Toda semana criava uma história diferente que envolvia Dante e a sua popularidade na escola. Dante e as meninas que se derretiam por ele. Dante e sua semelhança com Murilo Benício. Tanta confidencia acabou despertando o interesse de Lisa, e logo ela estava ansiosamente curiosa para conhecê-lo. Era melhor eu diminuir o ritmo ou a coisa poderia sair do controle.

    Voltei a focar na realidade a partir daí. Estava cada dia mais envolvido por Dante, e todas aquelas histórias que havia contado sobre ele, só aumentavam ainda mais meu desejo de ter realmente algum contato com ele. Precisava fazer algo. Dante precisava ao menos tomar conhecimento do carinho que sentia por ele, precisava saber o quanto alguém ali na escola o estimava. Decidi então escrever um cartaz numa folha de ofício e pregar no quadro de sua sala, para que não só ele, mas toda a turma lesse e gerasse aquele murmurinho em torno de sua pessoa. A ideia de vê-lo se sentindo o máximo entre os colegas, estimulava minha imaginação.

    E eis que preparei o cartaz descrevendo o quanto o admirava, o achava bonito e possuía muitas outras qualidades. A ideia era chegar um pouco mais cedo na escola e pregar o cartaz antes que qualquer aluno chegasse. Mas sempre aparecia alguém ou eu me sentia suspeito por ser o único a circular tão cedo pelos corredores, de modo que o cartaz foi ficando. Talvez fosse melhor escrever uma carta. Sim, uma carta endereçada unicamente a ele. Jogaria no carro que ele viajava e pronto. Mas não me identificaria a princípio. Precisava de um pseudônimo convincente. Escrevi como se fosse uma prima minha que se apaixonara por ele, mas não tinha coragem de se declarar, pedindo encarecidamente que eu lhe fizesse o favor de entregar a carta. Modifiquei até a letra. Tudo estava armado. Mas assim como o cartaz, também não encontrei a ocasião perfeita e ela também foi ficando.

    Até que um dia, uma declaração escolar modificou os planos. Minha mãe me cobrava constantemente esse documento da escola, não me recordo para quê. O fato é que eu já tinha solicitado, já estava comigo, só que em meio à minha papelada, não conseguia encontrar. Pois ela resolveu agir, e numa determinada manhã quando acordei e abri a porta do quarto, estava lá na sala, meu caderno aberto, vários papéis em volta, a declaração nas mãos de minha mãe e ao lado, o cartaz e a carta para Dante.

    - Encontrei a declaração. Agora o que é isso aqui?

    Foi uma pergunta tão apreensiva pelo conteúdo da resposta, que eu não sei quem estava mais gelado. E eu tinha apenas alguns segundos para conseguir elaborar uma justificativa aceitável. Mas como já diz o ditado, quem brinca com fogo…


  5. Sou gay, mãe

    março 22, 2012 by Sam

    Eu sou gay. Desde quando? Desde sempre. Quem me conhece, estranha. Mas você não era assim. Você namorava, queria casar, ter filhos. Mas ainda posso. E hoje posso com mais propriedade, pois serei sincero primeiro com quem mais importa, eu. Imagino minha mãe lendo essas linhas. Imagino a mãe de qualquer gay encarando a realidade do filho. O primeiro momento é sempre um precipício. O chão desaparece, e enquanto ela despenca no buraco escuro, imagens do filho gay aparecem à sua volta. Aquele menino ingênuo, educado, companheiro e sensível, agora sairá rebolando, xingando as pessoas, usando batom e meia-calça. Onde foi que eu errei?

    No mesmo instante, todo o passado da criação do filho é vasculhado, na tentativa de encontrar uma resposta, uma justificativa, uma explicação para o inexplicável. Nada. Ai, mas a culpa deve ser dos mimos da avó, a influência daquele tio depravado, a ausência do pai, os amigos esquisitos do teatro. Como se a sexualidade fosse uma droga que se experimenta e pode levar ao vício. Não é de se espantar que muitos pais tenham internado seus filhos em clínicas para a reabilitação sexual.

    Mas não, mãe, eu ainda sou o mesmo filho de antes. O mesmo garoto quieto, comportado, sensível, ajuizado. A educação que recebi não vai mudar por que prefiro os meninos às meninas. Não vou trocar meu guarda-roupa por que assumi uma realidade que esteve comigo a vida toda. Há quem goste realmente de adotar um visual feminino, forçar nos trejeitos. Mas esses também sempre o foram assim. Eu não, mãe. Eu estou feliz com as minhas roupas, com meu jeito, com minha condição de homem. A única coisa que não posso continuar usando é a veste de hétero. Isso não.

    Ah, é exatamente aqui que surge o segundo momento de choque dos pais. Não terei netos? Não posso adivinhar o futuro, mãe, mas provavelmente de sangue será difícil. A menos que tenha outros filhos héteros. E mesmo assim, filhos héteros não são garantia de reprodução. Quantos héteros conheço que nunca tiveram filhos, que nunca foram avós. E eu ainda posso adotar, se quiser. A burocracia vai ser maior no meu caso, mas há uma chance. Só não esqueça, mãe, que antes de serem seus netos, serão meus filhos, então eu devo ter o direito de querer tê-los ou não.

    Passados esses dois momentos, é hora de encarar a sociedade. E essa é uma tarefa que exige muito preparo. Embora um pouco esclarecidos a respeito da homossexualidade, os pais insistem em não assumir a identidade do filho perante os amigos, a família. Afinal, eles, os pais, podem compreender melhor o mundo gay, mas os vizinhos, os de fora, ainda não têm essa compreensão. E o conhecimento quando não se é partilhado é sinal de vergonha. Mas vergonha do próprio filho? Demora um pouco até eles entenderem que a opinião alheia é o que menos importa.

    Nessas horas, mãe, fico pensando como teria sido bom se tivesse tido seu apoio desde o início. Quantas garotas não teria enganado, quantas decepções teria evitado, quantas mentiras não teriam sido ditas. Mas fui preparado para ser macho, ‘pegar’ garotas, tomar cerveja, jogar futebol. Lembra das suas tentativas de me aproximar do futebol? Todos aqueles domingos à tarde no campinho atrás da torre de rádio ou na quadra da escola, cuja chave você fazia questão de ter acesso, para jogarmos no fim de semana. Tudo se harmonizava, menos seu filho com a bola. E até que tentei, fiz o que pude. Mas estava claro como um dia de verão que eu não tinha vocação para artilheiro.

    E como você insistia! Me comprou várias bolas, avisava meus amigos, praticamente nos empurrava para jogar futebol. E mesmo sendo o dono da bola, eu sempre era o último a ser escolhido pelos meninos. Comigo no time era sinal garantido de desfalque. Arrisquei ficar no gol, facilidade pro time adversário. “Que droga, Sam! Segura essa bola!” É, não dava. Decepção, minha mãe? Ou medo? Tudo isso era medo. Medo de que se seu filho não tivesse contato com o que era “saudável” a todo menino, ele pudesse se enveredar pelos caminhos “errados”. Pudesse “virar” ‘veado’. Mas todo esse medo é porque eu já era, e lá no fundo, você já sabia.

    Compreendo perfeitamente que nenhum pai quer ver seu filho sofrer, ser humilhado, ridicularizado. Mas no mundo em que estamos, ainda é inevitável para quem nasce gay. Depois de enfrentar primeiro a própria homofobia, quando nos vemos os vilões de um mundo perfeito, temos ainda toda uma sociedade carente de conhecimento, que só encontra na violência sua reação.

    Hoje, depois de anos sonhando com um gênio da lâmpada que pudesse me transformar em hétero, eu vejo a minha homossexualidade como um prêmio. Me sinto privilegiado de fazer parte do universo gay, de obter um conhecimento a mais a respeito da sexualidade humana. Essa compreensão nos torna mais humanos, mais sensíveis e tolerantes com o mundo. Percebemos que não somos esse quadrado perfeito que a sociedade prega. Não, temos muito mais ângulos. E não podemos ignorar a existência deles. Falta apenas disposição e humildade para conhecê-los.

    Por isso, minha mãe, não posso de maneira alguma lhe negar o direito de obter esse crescimento. Você, assim como todas as mães de gays, devem conhecer a verdade sobre seus filhos, e ao compreendê-los, compreender também um pouco do mundo. Hoje, você ainda acredita na imagem que alimentei do filho hétero que lhe dará uma nora e um casal de netos, mas o momento oportuno da realidade irá chegar. E eu espero que nesse dia, a homossexualidade seja menos castigada, os pais compreendam que seus filhos terão uma sexualidade quando crescerem, independente do desejo dos pais. Que as crianças possam crescer enxergando qualquer descoberta sexual como um processo natural. Eu espero que nesse dia, minha mãe, você me abrace e, como sempre, diga que a minha felicidade é a sua maior alegria.